Lançamento de "Diários de Solidão"

2011-04-24 12:38

Está programada para o dia 06 de maio, às 19 horas, a noite de autógrafos de “Diários de Solidão”, sexto livro (o primeiro de contos) do escritor Carlos Brunno Silva Barbosa, no Centro Cultural Professor Antônio Pacheco, em Rio das Flores/RJ. O evento marca a retomada do projeto “Poesia e Prosa Itinerante”, iniciado no ano passado, após diversas experiências em anos anteriores (como os Projetos “Poesia Itinerante I”, “Poesia itinerante II” e o “UniVersos Culturais de Valença”). O objetivo principal do evento é promover o envolvimento de todas as manifestações artísticas (prosa, poesia, teatro, artes plásticas e música), tendo como ‘mola propulsora’ dessa interação cultural o lançamento do livro de contos “Diários de Solidão” em diversas cidades do Brasil.

O evento previsto em Rio das Flores tem uma motivação a mais: será a primeira vez que Carlos Brunno organizará uma noite de autógrafos nessa cidade, às vésperas do aniversário do poeta (ele faz aniversário no dia 07 de maio). Estão confirmados nessa manifestação artística os seguintes artistas: o apresentador Ronaldo Brechane, Grupo Teatral Arte-ofício, que fará uma performance teatral sobre alguns contos do livro “Diários de Solidão” (o grupo, dirigido por Carlos Henrique Cassiano, acompanha o escritor em lançamentos desde 1997); a Sociedade Musical Camerata Rioflorense, o ator Luan Barros (que interpretará poemas de Carlos Brunno e de Júlio Uchoa), as poetas Letícia Correa e Juliana Guida Maia, o artista plástico Denis Pereira, o cantor Fael Campos e as bandas Zombiez [o evento marca o retorno da banda com a formação original – ´Fábio Arieira (vocais), Zé Zombie (guitarra) e Felipe Zombie (bateria)] e Gadernal (pela primeira vez em versão ‘semi-acústica’ , com Giovanni Nogueira, Babi e Ramiro). Serão expostos e declamados poemas de outros novos autores, como Elayne Amorim. A programação ainda não está totalmente fechada, havendo a possibilidade da participação de outros artistas, que ainda confirmarão presença, como Nilo Canedo e banda Carta na Manga, Bárbara (artista plástica e locutora do programa “Zine Mundo Underground” na rádio RADIOVALENCARJ.NET )

 


Abaixo, confira um trecho do livro (3 contos), cedido pelo autor especialmente para o site Sombrias Escrituras:

 


Aula noturna


As mãos trêmulas... Nunca guardara tanto ódio.
Chamaram-no de vagabundo, desordeiro. Mas o que podia fazer? Eles eram os chefes, os professores; na sala de aula, só eles tinham o poder.
Soldadinho de caneta e caderno na mão, era apenas um aluno, um aluno fervendo de ódio.
“O salário deles tá sempre baixo”, sabia disso. Mas o que podia fazer? Não era o Poderoso Patrão, o Dono do Tesouro Nacional; na vida, nem ninguém ele era.
Qual o poblema? Por que tinha que ser o alvo? Por quê?
Trabalhava o dia todo na fábrica: apenas a noite pra dormir e estudar. Mas como fazer os dois? Se não era dois, se mal conseguia ser um, como fazer?
Estudava pra poder sonhar, pra ser chamado de ‘doutô’...
Mas eles ofenderam-no. Por quê?
Como bom aluno, se guardou, guardou-se tanto que explodiu, manchando toda sala de aula com seu sangue O negativo.
Por um instante, todos se assustaram.
Um primeiro minuto de silêncio... No segundo, a aula continuou.

 


O exilado de lugar nenhum


São duas horas de alguma madrugada. Bebo uma cerveja barata (hoje estou sem dinheiro), amanhã uma conhecida, depois de amanhã qualquer outra marca. Sou um alcoólatra volúvel: no copo sujo do botequim, todas as cervejas são iguais. O importante que eu bebo. Bebo, logo desisto. Desisto de entender os telejornais que passam em sussurros na TV do canto do bar - a realidade é um quase silêncio no canto do bar. Desisto de compreender os companheiros loucos que se exibem como notícias polêmicas e informais no centro desse mesmo bar - são membros do melancólico realíly show da solidão coletiva do botequim.
Uma cachaça pra confessar minha tórrida brasilidade: sou um estrangeiro brasileiro numa mesa de bar da mãe gentil. Rua “Estranhos da Pátria” seria um bom nome para esse lugar. O bar é um quarto aberto para nós, os exilados de lugar nenhum. Mas a rua se chama Marechal Fulano e o bar não é casa de ninguém - é o que concluo quando o dono do bar, com olhos capitalistamente ditatoriais, proclama-se proprietário e me cobra a cerveja que mal bebi.
“Foda-se!”, grito por dentro, mas por fora eu pago, peço mais uma e dou um sorriso servil. Um dia, seguirei Nietzche, detonarei minhas crenças, me tomarei um super-homem, um super-homem-abstêmio e não mais me embriagarei. Enquanto isso não acontece, fico bêbado e mantenho o mesmo sorriso servil. Outra cachaça pela pátria que me pariu.
Um momento de ódio, o dono do bar sai e a garrafa cai. “Caiu”, é o que digo ao dono do bar que volta furioso. Nunca aprendi a controlar minha raiva. Em compensação, sei como dissimulá-Ia, aprendi a mentir. “Joguei a garrafa”, confessa-se o demônio dentro de mim. “Ah!. .. Foda-se!”, continua o demônio dentro de mim. Os cacos de vidro da garrafa vazia (antes de jogá-Ia, é claro, eu a bebi) me lembram relações passadas. Bebo demais, depois jogo tudo fora - é minha rotina: os cacos de vidro são pedaços de minha vida. E tudo passa: o dono do bar varre com desdém os cacos de vidro, fragmentos de minha história. Tão frágeis: a garrafa e a minha história.
“FODA-SE!”, eu bebo glorioso as minhas derrotas. “FODA-se.”, eu sempre orgulhoso das minhas inglórias. “foda-se ...”, pra evitar as lágrimas, peço outra garrafa E o dono do bar me escorraça, me convence fisicamente que é hora de fechar. Então a porta do quarto, outrora aberto, é trancada - agora minha casa é a rua
“FOOOOOOOOODAAAAAAAAAA-SSSSSSSSEEEEEEEEEEEEEEEEEE!”, eu grito por dentro, mas por fora é só silêncio. Luzes se apagam, apesar de toda iluminação pública. Mundo escuro, trevas de calçadas, de pernas que passam, quase a me pisar. Daqui a pouco, a ressaca. Amanhã, outro bar.

 


Recolta de estrelas


    Atravessa o quarto de estrelas no teto e ursinhos sorridentes. Vê o berço vazio, dos olhos vivos saem lágrimas mortas.
    A lua minguante embala o lindo bebê que não existe.
 

 

(Carlos Brunno Silva Barbosa - Diários de Solidão)